Quem é essa tal sociedade?
uma carta sobre reconciliação
Eduardo Casarotto
Programa O Novo Eu · Instituto Virtudes
Dizem que você cometeu um crime contra a sociedade. Está escrito assim, no papel. Contra a sociedade. Mas para um instante com essa palavra na mão e faz a pergunta que ninguém faz: quem é ela? Porque ninguém se revolta contra um prédio. Ninguém sente raiva de uma lei escrita. Ninguém quebra a janela de uma coisa que nunca olhou pra ele.
Então imagina a sociedade como uma pessoa. Uma mulher. Velha. Está aqui há muito tempo, mais tempo do que você e do que eu. Ela tem os costumes dela. Tem hora pra tudo, tem jeito pra tudo. Tem regras escritas, que são as leis, e tem outras que ninguém escreveu e todo mundo cobra. Ela tem valores. Tem crenças. Tem o que ela chama de certo e o que ela chama de errado. E ela não é perfeita. Longe disso. Ela tem os filhos que ela ama de perto e os que ela deixa mais longe. Ela tem preferidos. Ela erra. Ela também é primitiva, em muita coisa.
Você nasceu na casa dela. Mas tem uma parte dessa casa em que você nunca entrou. Teve uma escola que não te esperou. Teve uma porta de emprego que não abriu. Teve gente que atravessou a rua quando te viu. Teve um lugar na mesa que nunca foi o seu.
E é aqui que eu preciso te falar uma coisa difícil. Ela não te expulsou. Ela só não olhou. Não teve reunião. Não teve decisão. Ninguém se juntou pra escolher você. Ela estava distraída, cuidando dos de perto, e deixou porta fechada sem perceber que tinha gente do lado de fora.
Isso não conserta o que você sentiu. Mas muda uma coisa: não foi contra você. Foi descuido. E descuido machuca quase do mesmo jeito que a maldade — só não tem alguém pra odiar no fim.
Aí veio a revolta. E eu quero que você repare numa coisa sobre a revolta, porque quase ninguém repara. Quem se revolta é quem ainda esperava algo. Ninguém fica revoltado com estranho. Ninguém grita com quem nunca lhe devia nada. A revolta é o barulho de uma esperança que caiu no chão e se quebrou.
Então você bateu na casa dela. Quebrou o vidro. Levou o que era dela. Ou machucou alguém que ela ama. E não foi contra uma abstração, não: era gente. Sempre é gente.
E ela fez o que qualquer um faz quando é ferido dentro da própria casa. Ela te colocou longe. Ela chamou isso de pena. Mas por dentro era o que é sempre: alguém magoado tirando de perto quem lhe fez mal.
Agora olha onde vocês dois estão. Dois magoados. Um lá fora, com a janela quebrada. Um aqui dentro, com a porta trancada. Cada um esperando o outro dar sinal. E esperar assim pode levar a vida toda. Tem gente que morre esperando. Sai daqui, volta pra rua, e continua esperando que alguém venha primeiro. Ninguém vem. E aí volta pra cá.
Então a pergunta que decide a sua vida não é quem errou mais. É outra, e é esta: quem dá o primeiro passo?
E eu vou te dizer, sem enfeite: tem que ser você. Não porque você errou mais. Não porque você merece menos. Não porque ela tem razão e você não. Mas porque é você que está com este papel na mão. É você que está lendo isso agora. Ela não vai ler. Ela nem sabe que existe.
E porque a sua vida é a sua. Enquanto você espera que ela mude, é ela que manda em você. No dia em que você se move sem esperar, aí você volta a mandar em si mesmo.
Dar o primeiro passo não é ser o mais fraco. É ser o único ali que ainda quer viver.
E isso tem um nome. Chama humildade. Não a humildade de abaixar a cabeça. Não é isso, nunca foi isso. Humildade é parar de fazer a conta. É deixar de somar o que ela te fez, de guardar na memória cada porta fechada, cada olhar de lado, cada não. É soltar a régua da mão. Porque enquanto você mede quem devia mais, você continua preso — e não é da cadeia que eu estou falando.
Reconciliar não é dizer que só você errou. É dizer: eu não vou mais contar. Eu vou construir.
Repare na palavra que eles usam pra isso. Reintegração. Íntegro é o que está inteiro. Integrar é fazer voltar a ser um. E o "re" na frente quer dizer de novo. Ou seja: você não vai entrar. Você vai voltar. Porque o lugar era seu desde o começo. Ninguém te deu de presente e ninguém te tirou. Você só nunca chegou até ele.
E como se volta? Não é com discurso. Ela não escuta discurso. Volta-se pelo trabalho que você faz bem feito quando ninguém está olhando. Pela palavra que você cumpre. Pela hora que você respeita. Pelo respeito que você dá ao servidor que abre e fecha a sua porta todo dia. Pela briga que você não compra. Pela mão que você estende ao que chegou hoje e está com medo, como você já esteve.
É assim, miúdo, sem ninguém aplaudindo. Ela é desconfiada, essa velha. Tem motivo. Ela vai levar tempo pra acreditar em você. Deixa levar. Você não está fazendo pra ela ver. Você está fazendo pra você virar isso.
Ela ainda está aí. Com a casa dela, as regras dela, os defeitos dela, a desconfiança dela. Imperfeita como você, como eu, como tudo que é vivo. E ainda tem um lugar na mesa que nunca foi ocupado. Ela não sabe o seu nome ainda. Vai saber.
Programa O Novo Eu · Instituto Virtudes



